Atualização todas as quartas-feiras

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Curupira e o bando de tamanduás-bandeiras

D
evido às circunstâncias, todos os outros já acreditavam que o seqüestro sofrido pelas crianças tinha sido real; e sem esperanças de salvação, Sebastião e Norma pediram perdão a Ângela por não terem acreditado na filha. O único que mantinha a esperança era padre Adonai que rezava fervorosamente.

As formigas já estavam com água na boca. A rainha deu o grito de ordem:

- Atenção! Preparar, avançar e é...

Não pôde continuar, pois uma espécie de aspirador de pele e pêlos sugou a rainha assim como centenas de formigas ao mesmo tempo.

- É o curupira e um bando de tamanduás-bandeiras! – Gritou uma das formigas desesperada.

Foi uma debandada só. As formigas corriam de um lado para o outro, pisoteando umas às outras, preocupadas cada uma em salvar sua própria pele, enquanto um grupo de sete tamanduás-bandeiras invadia o formigueiro e dava cabo das milhares de formigas antropófagas ao mesmo tempo. Em poucos minutos, já não havia mais nem sombra de nenhuma formiga saúva no recinto, pois as que sobreviveram, pois as que sobreviveram às sugadas dos tamanduás já estavam a léguas de distância.

Depois da fuga das formigas, um porco do mato entrou no formigueiro. Nada de tão anormal assim se esse porco do mato não carregasse em sua carcaça um moleque de cabelos avermelhados, desgrenhados, as orelhas enormes e pontiagudas e o corpo coberto de pêlos verdes. Os prisioneiros olharam para os pés do moleque e ficaram estarrecidos ao verem que ele tinha os calcanhares para frente e os pés para trás. Não havia a menor sombra de dúvida. Era ele; o lendário Curupira.

O ser folclórico apeou do porco do mato e tratou de desamarrá-los, perguntando:

- Quem são vocês e o que fazem aqui?

Todos se apresentaram e explicaram tudo que havia acontecido e que estavam indo para São José da Poeira em Pé.

Curupira pegou ervas do mato e passou por cima das feridas de picadas das formigas que eles tinham na pele, sarando-os. Fez o mesmo com o leão Serafim que voltou a enxergar e deu urros e mais urros de alegria ao notar que estava novinho em folha.

- Esta parte da estrada é muito perigosa – aconselhou o moleque verde – vocês têm muita sorte de não ser noite de lobisomem, senão estariam todos fritos. Agora tratem de seguir o caminho de vocês que eu vou atrás acobertando de qualquer perigo.

Todos voltaram para seus carros - cujos pneus que tinham sido furados, já tinham sido misteriosamente trocados - ligaram o motor e seguiram em frente em carreata, um atrás do outro com Curupira por ultimo a protegê-los.

Meia hora depois conseguiram sair da floresta negra que rodeava a estrada, podendo voltar a serem iluminados pela luz da lua e das estrelas. E dentro de poucos minutos, já podiam avistar entre as luzes elétricas uma linda igreja toda branca tendo a sua frente uma enorme praça com parque, jardim, árvores, coreto. Tudo isso entre singelas casas e modestos comércios. Na frente de tudo isso um imenso portal, sustentado por quatro colunas e escrito em sua suntuosa abóbada em letras triunfalmente garrafais: “sejam bem-vindos a São José da Poeira em Pé”.

domingo, 27 de março de 2011

O ataque das formigas saúvas


O
 sol era uma pequenina bola de fogo em cima do horizonte que em poucos minutos se escondeu atrás das montanhas para dar lugar no céu aos primeiros raios de luar.

O leão Serafim dirigindo a van, o padre Adonai dirigindo a moto e Sebastião dirigindo o fusca já estavam na estrada com seus companheiros. Aldebarã, Ângela e Ivinho estavam inconformados por ninguém ter acreditado na história do seqüestro relâmpago.

Aldebarã, com Isidoro no colo, dava a maior bronca no boneco:

- Que bonito, hein, seu Isidoro?! Fazendo a gente passar a maior vergonha. Mas você vai ver só uma coisa.

Ângela, por sua vez, também deu a maior bronca em seu ursinho Douglas e depois pensou lá com seus botõezinhos de menina:

- Como meus pais podem duvidar de qualquer coisa que eu diga depois de conhecer três bichos que falam?

À certa altura da estrada, esta passou a ser rodeada por uma floresta escura. Ouviam-se barulhos de grilos, cigarras e corujas. Padre Adonai e Ivinho na moto sentiam morcegos sobrevoarem por cima de suas cabeças. Era tudo escuridão. Somente os faróis do fusca, da van e da moto iluminavam o caminho.

- Eu esqueci que para chegarmos à cidade tínhamos que passar por essa mata horrorosa. – Dizia Norma, começando a ficar com medo.

De repente todos começaram a sentir formigas andando por cima de seus corpos. Eles as espantavam com as mãos, mas quanto mais eles espantavam, mais elas subiam.

De repente, os pneus da van, da moto e do fusca puf! Estouraram e todos tiveram que sair de seus veículos se estapeando para espantarem as formigas. A maioria deles começou a ficar entre aborrecida e amedrontada por estar naquela mata escura e fechada com aquelas formigas a lhe pinicar todo o corpo.

Sebastião pegou uma lanterninha para iluminar mais o lugar onde estavam, já que Ângela estava ameaçando começar a chorar de medo. Mas quando acendeu a luz da lanterninha quase que quem abriu o berreiro foi ele, quando percebeu que todo o seu corpo, o de sua mulher, sua filha, assim como o de padre Adonai, Aldebarã, Ivinho e os três animais estavam todos cobertos de formigas, daquelas saúvas, bem cabeçudas.

As formigas, então passaram a lhes picar a carne com agressividade e sem dó. Serafim deu um urro feroz e já ia começar a afiar suas garras contra as formigas, quando duas delas lhe saltaram sobre os olhos, picando-os e lhe deixando completamente cego. Sem poder fazer nada o pobre felino se atirou no chão e começou a agitar as quatro patas para o ar, dando rugidos desesperados e gritando:

- Socorro! Estou cego! Essas formigas malditas me cegaram!

Totalmente desnorteados todos começaram a gritar.

De repente, ouviu-se uma voz bem fininha, mas medonha como a de uma bruxa:

- Vamos levá-los para o formigueiro!

E misteriosamente abriu-se um imenso buraco embaixo deles.

Com bastante habilidade as formigas amarraram-nos todos juntos uns aos outros com cipó e os fizeram sentar no chão. Padre Adonai rezava quantos pais-nosso, ave-marias e credos podia; Norma e Ângela tinham os rostos parecendo duas bolas de fogo, devido o choro e as ferroadas das formigas; Aldebarã pensava em alguma mágica para fazer aquelas formigas sumirem; Ivinho chorava: Sebastião estava tenso e apreensivo. Margarida e Nelson ficavam calados com os olhos arregalados.

Acendeu-se uma luz que ninguém sabia de onde vinha. Depois todos observaram que era um pobre vaga-lume amordaçado e amarrado a um pequeno galho de árvore. Notaram também que o lugar onde estavam era parecido com um galpão de areia.

Uma formigona muito da antipática adentrou o recinto e foi logo dizendo:

- Silêncio! Finalmente demos início à fase inicial de nossa vingança contra os humanos e seus amigos, porque animal que é amigo de humano, humano é também e como tal também merece ser varrido do planeta. Agora dará entrada e tomará a palavra a nossa amada e idolatrada rainha Formiguete I, a vingadora.

E imediatamente bateu com um bastãozinho na terra três vezes. Nisso uma cortina feita de folha de bananeira abriu-se e uma formiga não menos arrogante entrou triunfantemente no formigueiro com uma coroazinha na cabeça, um imenso manto amarrado ao pescoço, derramado pelas costas e carregados pelas pontas por duas outras formigas damas de companhia.

A rainha das formigas tinha tanta pose que parecia que Ia se arrebentar de tanta pompa. Com a sua entrada, as formigas súditas se ajoelharam e lhe saudaram. A majestade, por sua vez, sentou na casca de um galho de árvore e disse de forma solene:

- Caríssimas súditas! Desde quando o mundo é mundo, essa porcaria que todas vocês conhecem muito bem, viemos sendo humilhadas, pisadas e assassinadas por esses cretinos desses humanos que nos envenenam e nos dedetizam todos os dias. Deus deixou a natureza aí para dividirmos tudo uns com os outros. Mas o homem que se diz racional quer tudo só para ele...

- Mas o que nós temos a ver com isso? – Interrompeu Sebastião que ainda não acreditava que estava sendo aprisionado com sua família por um bando de formigas.

- Cala a boca, crioulo maldito – disse a formiga mestra de cerimônias – Vossa Majestade ainda não acabou de se pronunciar.

- Obrigada! – Prosseguiu a rainha. – Como eu ia dizendo eles querem tudo só para eles e nos deixar sem nada. Como se já não bastasse, ainda tenta nos exterminar, não só a nós, mas a todos os outros insetos e animais da face da terra. Não é justo nós, que somos honestas e trabalhadeiras, nos deixemos ser abatidas por essa corrupta e mau-caráter.

As formigas começaram a aplaudir a rainha e a fazer mil alvoroços em torno dos prisioneiros, gritando hurras e palavras de ordem do tipo: “apo, apo, apo, os humanos estão no papo” ou “aram, aram, aram, os humanos se ferraram”.

Cansada de chorar, Norma passou a se impor:

- Vocês acham que é nos seqüestrando que vão conseguir o que querem?

A formiga olhou para Norma. Fitou bem os olhos dela e disse enfurecida:

- Espera aí. Eu estou reconhecendo esta oxigenada. Você não é a Norma, filha daquele casal de velhos safados que é o Afonso e a Diva e que vivem colocando aqueles remédios que já mataram muitas de nós na horta deles?

Ao ouvir ser xingada de “oxigenada” e os pais de “casal de velhos safados”, o sangue de Norma subiu a cabeça, fazendo-a esquecer todo o medo.

- Em primeiro lugar eu não sou oxigenada, pois meu cabelo é natural e segundo safada é você porque meus pais são as melhores pessoas da face da terra. E tem mais. A imensa horta que temos na fazenda é fornecida para todo o Estado e alimenta muita gente, não é só a nós, não senhora. Não tem necessidade nenhuma de vocês destruírem a horta da fazenda com tanta folha aqui nesse mato.

Ouviu-se um “ooohhh!!!” Entre as formigas, uma delas deu uma picada no braço de Norma, dizendo:

- Sua desaforada. Como ousa falar assim com Vossa Majestade?

 A outra formiga pediu permissão à rainha para que ela e as demais ferroassem a língua de Norma até que não sobrasse mais nada.

- O que é dessa daí está guardado. – Disse a rainha em tom ameaçador. - Dela e desse bando que ta com ela, incluindo esse leão bobão, essa macaca horrorosa e esse coelhinho sem graça.

Serafim estava com as patas e o focinho completamente amarrados em cima de uma grande pedra, totalmente imobilizado; se contorcendo de dor, devido às ferroadas nos olhos e no corpo todo; se sentindo ferido também moralmente por se sentir incapaz de usar sua autoridade e seu poder de rei dos animais para salvar-se a si mesmo e a seus amigos.

- O que a senhora pretende fazer conosco? – Perguntou o padre Adonai.

- Isto! - Respondeu a rainha estalando a fina patinha logo em seguida.

Imediatamente entrou no formigueiro um carnudo e suculento frango assado carregado por várias outras formigas saúvas que por sua vez puseram o frango diante dos prisioneiros e devoraram-no num piscar de olhos. Dentro de poucos instantes, o frango assado era somente ossada.

- Vocês vão comer a gente? – Perguntou Aldebarã quase fazendo xixi nas calças de tanto medo.

A rainha debochou do pequeno mágico:

- Oh! Mas que brilhante conclusão. Você é mesmo um garotinho muito inteligente.

Uma sauvinha muito jovem, filha da rainha, portanto princesa do formigueiro, que tinha gostado de Aldebarã, tentou pedir pelos prisioneiros:

- Minha mãe. Não é necessário devorá-los. Dar-lhe-emos apenas algumas picadinhas depois libertá-lo-emos.

- Cale-se! – Gritou a rainha. – Você desde quando inventou essa mania de virar vegetariana está misericordiosa demais pro meu gosto. Os humanos não têm piedade nenhuma conosco, porque haveríamos de ter com eles?!

Sebastião tentando ganhar tempo disse:

- Dona Formigona!

- Vossa Majestade! – Corrigiu uma das formigas súditas, dando-lhe uma bela ferroada no braço.

- Vossa Majestade, carne crua é muito ruim. A senhora não gostaria de colocar um temperinho antes?!

Norma que não sabia das intenções do marido, deu-lhe uma cotovelada.

- Ficou louco?

- Calma! – Respondeu o professor, baixinho. – Eu sei o que eu estou fazendo!

- Vocês já falaram demais pro meu gosto! – Disse a rainha. – Vamos parar com o papo que eu já estou morrendo de fome.

Ângela falou com voz manhosa:

- Mãe, eu estou com medo!

Tentando, sem conseguir, disfarçar o desespero, Norma consolava a filha:

- Calma filhinha! Mamãe está aqui!

Aldebarã, Ângela e Ivinho estavam desconsolados. Haviam acabado de escapar de quatro bandidos perigosíssimos fantasiados de palhaços e agora estavam prestes a serem devorados por aquelas formigas comedoras de gente. Lembraram de ter deixado Isidoro na van e Douglas no fusca:

- Será que eles vão se transformar no Super-Mandiocão e no Mega-Ursão novamente para nos salvar? – Pensavam.

Super-Mandiocão e Mega-Ursão


  Q
uando o carro já estava a quilômetros e quilômetros de distância da lanchonete, os bandidos sentiram algo como que uma gigantesca sombra passando por cima do carro, enquanto as crianças continuavam a gritar e espernear.

            - Que nuvem negra será essa? – Perguntou um dos criminosos. – Será que vai chover?

            - Deve ser um avião passando! – Disse o outro.

            Mas qual não foi a surpresa deles, quando viram duas figuras colossais sobrevoarem por cima do carro, ultrapassando-os e aterrissando em plena estrada e na frente do carro com as mãos na cintura, em trajes de super-heróis. Um deles tinha formato de mandioca e cabelos coloridos, enquanto o outro era um enorme ursão de pelúcia.

Aldebarã reconheceu-os:

- É o Isidoro e o Douglas.

Os bandidos quase fizeram xixi nas calças de tanto medo quando deparam com os dois grandalhões. Pararam o carro e começaram a tremer. Os super-heróis andaram com passos duros em direção ao carro. Eram passos de estremecer toda a estrada.

Chegando à frente do carro, deram um soco no pára-brisa, quebrando-o e pegando os dois bandidos pelo colarinho rodopiando-os ao ar com uma mão só e jogando-os a uma distância a perder de vista. Os outros dois que estavam com as crianças no banco de trás, largaram-nas e tentaram fugir. Mas os super-heróis esticaram o braço de tal forma que conseguiu pegá-los e encostando a cara deles nas suas, disseram ao mesmo tempo em vozes assustadoras:

- Vocês vão arrancar o órgão da vovozinha de vocês e vender para o exterior!

E deu um soco cada um em um bandido, que eles também foram parar num lugar que ninguém sabe aonde.

Sãs e salvas, as crianças saíram do carro e começaram a pular de alegria.

- Quem são vocês? – Perguntou Ângela aos misteriosos heróis.

- Eu sou o Super-Mandiocão.

- E eu sou o Mega-Ursão.

- Que Super-Mandiocão e Mega-Ursão nada. – Disse Aldebarã. – Vocês são o Isidoro e o Douglas.

- Vamos parar de papo-furado. – Disse o Super-Mandiocão. – Porque temos que levá-los de volta à lanchonete antes que os outros dêem falta de vocês.

Depois pegou Aldebarã com um braço e Ângela com outro, enquanto Mega-Ursão pegava Ivinho e os dois levantaram vôo no espaço.

Nos ares, as crianças gritavam dessa vez de alegria e empolgação, vendo carros, caminhões e ônibus passando na estrada como se fossem formiguinhas. Elas não se agüentavam de contentamento de lá de cima. Protegidos pelos braços daqueles estranhos super-heróis, elas se sentiam verdadeiros deuses.

Chegando à lanchonete, Super-Mandiocão e Mega-Ursão aterrissaram com as crianças no jardim. Em terra firme, Aldebarã, Ângela e Ivinho entraram correndo na lanchonete para contar a grande aventura pelo qual passaram. Sebastião, Norma, padre Adonai, Serafim, Margarida e Nelson continuavam entretidos conversando e não faziam a menor idéia do grande perigo que as crianças haviam passado.

Ângela chegou correndo na frente e foi logo até Norma vomitando as palavras num fôlego só:

- Mãe, pai vocês não sabem o que aconteceu com a gente! Quatro palhaços pegaram eu, o Aldebarã e o Ivinho; jogaram a gente dentro do carro e seqüestraram a gente. Só que o Isidoro e o Douglas se transformaram no Super-Mandiocão e no Mega-Ursão e bateu nos palhaços, salvou a gente e trouxe a gente pra cá voando.

Ninguém acreditou.

- Filhinha. – Disse Norma. – Como eles puderam ter feito isso se eles só são apenas dois bonecos?

Aldebarã interveio:

- É tudo verdade! Os palhaços eram bandidos e iam nos levar para o esconderijo deles para arrancar nossos olhos, rins, fígados e corações e vender para o exterior. Só que o Isidoro e o Douglas se transformaram em dois super-heróis, nos salvaram das garras deles e nos trouxeram voando de volta para cá. Eles estão lá fora no jardim. Vem ver.

Todos se levantaram e foram para o jardim se certificarem do acontecido. Mas chegando lá, para desapontamento das crianças, o que viram foi o bonequinho de mandioca do Aldebarã e o ursinho de pelúcia de Ângela jogados no jardim como sempre foram: inanimados, pequenos e mudos.

- Essas crianças têm uma imaginação tão fértil! – Disse Norma sorrindo.

Aldebarã e Ângela se irritaram. Recomeçaram a contar toda a história timtim por timtim e a perguntarem a Ivinho se era verdade ou não a cada detalhe. Ivinho como não podia falar, só mexia com a cabeça que sim. E tanto teve que acenar com a cabeça que sim várias vezes que o coitado acabou ficando com dor de cabeça.

Cansado daquela discussão, Sebastião fingiu que todos acreditavam na história contada e decidiu pagar a conta para irem embora, pois a tarde já havia caído.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Os quatro palhaços


  A
ldebarã, Ângela e Ivinho foram brincar num pequeno jardim que ficava entre a lanchonete e um parquinho que tinha ali perto, levando consigo Isidoro e Douglas. Sentaram num banquinho um do lado do outro. A princípio, Aldebarã e Ângela só se olhavam encabulados sem saberem o que dizer um ao outro.

            Cansada daquela timidez, a menina perguntou:

            - Que tipo de mágica você faz, Aldebarã?

            - Olha só!

E o menino tirou duas cartas de jogo da manga de seu paletó de mágico mirim, mostrou para Ângela e num truque fez com que as cartas desaparecessem e reaparecesse por detrás das orelhas da menina, cada uma como duas flores – sem espinhos, é claro – que ele colheu e ofereceu galantemente à ela. A garota ficou encantada.

- Que lindo! – Disse.

E voltando-se para Ivinho, Ângela perguntou em libras se o menino havia gostado da mágica no que ele respondeu positivamente.

Ivinho, apesar de sua deficiência auditiva, era muito esperto e prestava atenção em tudo à sua volta. Infelizmente só não pôde prestar atenção em quatro sujeitos muito mal encarados que estavam fantasiados de palhaços, escondidos atrás de uma moita, observando-os.

O primeiro disse ao segundo:

- Simples. Um de nós vai para dentro do carro e ficar na direção esperando, enquanto os outros três vão ficar lá fazendo gracinha para distrair os pestinhas. Quando eles estiverem bem distraídos com a gente, cada um pega um, tapa a boca do infeliz e arrasta pra dentro do carro, enquanto o que estiver esperando na direção mete o pé no volante e nos leva direto para o nosso esconderijo, onde nós iremos arrancar os órgãos desses fedelhos – olhos, rins, fígado e coração – e venderemos por uma fortuna para o exterior. Que é para onde fugiremos depois que o plano estiver sido executado e nós estivermos postos a mão na grana.

- Vamos fazer o quê com o resto do corpo?

- Vamos jogar no rio para as piranhas comerem!

- Eu ainda continuo achando tudo isso muito arriscado!

- Você é um banana! Saiba que para ser bandido tem que ter muita coragem e determinação.

- Um deles além de ser preto ainda é surdo e mudo.

- Isso não interessa! O importante é o resto está em perfeita condição, pois a fala ou a não fala, tanto dele quanto a dos outros dois, não vai ter serventia nenhuma, nem antes, nem durante, nem depois da operação! – Disse o primeiro palhaço, dando uma diabólica risada logo em seguida.

- Olha só os olhos daquela menina. Parecem até dois pedacinhos do mar.

- Pois logo, logo, tanto os olhos dela quanto a dos outros dois capetinhas, assim como os outros órgãos que eu falei, vão nos dar muito dinheiro.

As crianças não tinham a menor noção do enorme e monstruoso perigo que as rondava.

Chateado por não poder conversar com Ivinho, pois não sabia usar as mãos em libras, Aldebarã pediu à Ângela para lhe ensinar como fazê-lo.

Nisso os falsos palhaços – que àquela altura já haviam decidido sair da teoria e partir para a prática do macabro plano – se aproximaram dos meninos dando cambalhotas. Ângela quando os viu ficou toda animada à bater palmas:

- Oba! Palhaços!

Os mercenários, aproveitando-se da ingenuidade da menina, começaram a fazer brincadeirinhas típicas dos palhaços de rua para entreter as crianças.

Alguns instantes depois, Aldebarã se entediou:

- Esses palhaços são muito sem graça! Vamos brincar ali no parquinho.

- Não. Vamos ficar aqui vendo só mais um pouquinho. – Pediu Ângela.

Os bandidos perceberam que não tinham mais tempo a perder. Cada um tirou um lenço de cores diferentes de dentro do bolso e começou a se aproximar ainda mais das crianças, fingindo fazer mágicas. Aproximaram seus lenços lentamente aos rostos das crianças e záz! Taparam-nas as bocas para que elas não gritassem, agarraram-nas e num piscar de olhos foram correndo tão velozes quanto três avestruzes para dentro do carro.

Surpreendidos com o repentino e violento ataque contra eles, Aldebarã e Ângela acabaram deixando seus bonecos Isidoro e Douglas caírem no chão. Ivinho ainda tentou morder a mão do palhaço-bandido que o segurava, mas o infeliz tinha a mão tão dura que parecia uma pedra e quase quebrou o dentinho do pobrezinho.

Depois que os bandidos entraram no carro com as crianças a espernearem e a gritarem inutilmente, o líder dos covardes gritou para o motorista:

- Pé na estrada, galera!

O motorista meteu o pé no volante e disparou com o carro a mil por hora.

 Já cientes de que aquilo era um seqüestro e de que estavam correndo risco de vida, as crianças entraram em pânico. Ângela desandou a chorar, espernear e gritar pelos pais; Ivinho emitia grunhidos desesperados em alto e bom som que fazia entender a quem escutasse que aquilo era um pedido de socorro; Aldebarã tentava inutilmente lutar com o bandido que o segurava.

Podem gritar e chorar a vontade. – Dizia um dos bandidos. – Ninguém vai escutar vocês. Já estamos muito longe, seus filhotes de cruz-credo com coisa ruim. Já, já vamos arrancar todos os órgãos de vocês fora e vamos vender para o exterior, onde vamos ganhar muito dinheiro.

E danaram a rir malignamente, deixando nossos pobres indefesos apavorados.

A parada


  E
les continuavam dirigindo quando a certa altura da estrada puderam avistar uma modesta lanchonete. Como estavam todos morrendo de fome, resolveram parar em frente à mesma. Estacionando um do lado do outro, desceram cada um do seu veículo.

O primeiro a falar foi o senhor:

- Vocês vão todos para São José da Poeira em Pé?

Todos concordaram que sim.

- Então podemos sentar todos nós a mesma mesa?

- Eu acho uma ótima idéia! – Respondeu o moço do fusca.

- É! – Concordou a loira não conseguindo esconder uma ponta de medo dos animais, principalmente de Serafim, pois não é hábito se ver, principalmente no Brasil, um leão as soltas como se fosse gato ou cachorro, ainda mais dirigindo.

- Vamos meu jovenzinho! – Disse o senhor, estendendo o convite a Aldebarã, Serafim, Margarida e Nelson.

Dentro da lanchonete havia algumas mesas e cadeiras enfileiradas que o senhor, o rapaz e Aldebarã uniram para poder ficarem todos juntos. Já sentados e acomodados à mesa, começaram as apresentações:

- Meu nome é Adonai e eu sou padre. – Disse o senhor.

- O senhor é o novo padre que estava para chegar à São José? – Perguntou a moça.

- Já estou chegando. – Respondeu o padre Adonai.

- Prazer e sua benção. – Continuou a loira, apertando a mão do padre, cumprimentando-o. Eu me chamo Norma, este é meu marido Sebastião e esta é minha filhinha Ângela.

O moço negro e a menina mulata sorriram para o padre e também o cumprimentaram, enquanto Nelson lançava sobre Margarida o olhar vitorioso da aposta ganha.

- A sua filhinha é muito lindinha. – Elogiou o padre, fazendo uma festinha com a ponta dos dedos no rostinho rechonchudo de Ângela.

- E esse garotinho fofo que está com o senhor? – Perguntou Norma se referindo ao menininho pretinho que estava com o padre Adonai.

- Este é o Ivinho. Eu acabei de adotá-lo. Ele é surdo e mudo.

Norma que sabia falar em libras, que é a linguagem de se falar com surdos-mudos, disse a Ivinho, através de sinais, que todos na mesa gostaram muito dele e queriam ser seus amigos.

Sebastião tomou a palavra:

- Agora faltou esse baixinho com roupa de mágico? Qual o seu nome?

- Aldebarã! – Respondeu o menino-mágico.

- Onde estão seus pais Aldebarã?

- Minha mãe mora na Inglaterra!

Norma ficou horrorizada:

- Sua mãe vai morar na Inglaterra e deixa você sozinho com um leão, uma macaca e um coelho?

Ofendida com o pouco caso, Margarida pôs as mãos na cintura e gritou:

- Fique sabendo que nós somos animais sim senhora, mas cuidamos muito bem dele, viu?! Aliás, muito melhor do que muitos pais que cuidam de seus filhos.

Norma e Ângela quase levantaram da cadeira e saíram correndo, tamanho foi o susto que tomaram com a fala da macaca. Padre Adonai, Sebastião e Ivinho - que apesar da deficiência auditiva pôde perceber que a macaca falava através do gesticular de sua boca - também ficaram surpreendidos.

- Calma Margarida! – Ponderou o coelho Nelson, deixando todos mais embasbacados do que já estavam. A dona Norma não falou por mal.

- O senhor leão também fala? – Perguntou o padre Adonai.

- Apenas quando é necessário. – Respondeu Serafim.

O garçom apareceu e anotou os pedidos, com um pouco de medo de Serafim, mas conseguiu disfarçar, se retirando imediatamente.

- O que sua mãe faz da vida, Aldebarã? – Sebastião quis saber.

- Minha mãe trabalha no circo. Ela faz tudo. Ela é palhaça, trapezista, mulher barbada, engolidora de fogo e espada...

- Puxa mãe! – Interrompeu Ângela que era fascinada pelo mundo do circo. – Você bem que podia fazer todas essas coisas que a mãe do Aldebarã faz, né?!

- Filhinha, mamãe já é professora, o que vale por tudo isso e muito mais! – Respondeu Norma, arrancando gargalhadas de todos na mesa.

- E sua mãe nunca se machucou Aldebarã?

- Teve uma vez que ela foi saltar dentro de uma roda de fogo e saiu toda chamuscada.

O garçom chegou com os lanches e a fatia de contrafilé crua que Serafim havia pedido. Enquanto lanchavam o papo continuava.

- Você é professora de quê? – Perguntou Aldebarã à Norma.

- Eu sou professora de literatura.

- E eu sou professor de História. – Intrometeu-se Sebastião.

- Com pai e mãe professores a Ângela vai crescer muito sabida. – Brincou o padre Adonai.

- Vocês já têm onde ficar? - Perguntou Norma.

- Nós vamos ficar numa casa de mármore que minha mãe deixou para nós lá na cidade. – Disse Aldebarã.

- Eu e Ivinho vamos ficar na casa que era do antigo padre nos fundos da igreja. – Disse o padre.

- Se vocês não tivessem onde ficar poderia ficar uns tempos na fazenda do meu sogro Afonso, aposto que ele não iria se importar. Ele adora crianças. – Disse Sebastião.

- Então você é filha do vovô Afonso e da vovó Diva? – Perguntou Aldebarã à Norma.

- Você já os conhecia? – Quis saber Norma.

- Minha mãe falou deles no e-mail que mandou para mim. Ela os conheceu quando esteve em São José.

- Eu sou suspeita para falar, mas meus pais são pessoas maravilhosas. Amigos de todos e tem corações maiores do que o mundo, aliás, o mundo só não, maior do que todo o sistema solar junto.

Sebastião continuou:

- E a minha esposa aqui puxou a eles. É por isso que eu sou tão apaixonado por ela. – E deu um beijo na mulher.

- Como é São José da Poeira em Pé?

Com o olhar longínquo, a professora respondeu:

- É um lugar maravilhoso. Lá o ar é mais puro. As crianças são mais saudáveis, mais livres. Podem correr e brincar por toda a parte. Os homens se respeitam e se tratam melhor uns aos outros. É um lugar raro nos dias de hoje.

- Lá têm muitos lugares com o nome engraçado – disse Sebastião. – Como o rio Morubixaba, o matagal da Serpente Partida ao Meio, o morro do Largato Seco. Mas também tem praça, parque e campos próprios para as crianças brincarem.

Depois que acabaram de lanchar, Ângela se aproximou de Aldebarã.

- Que boneco é esse?

- O nome dele é Isidoro e é feito de mandioca.

- Que engraçado!

- E esse seu ursinho de pelúcia?

- O nome dele é Douglas.

- Vamos brincar?!

Ângela que também sabia falar em libras estendeu o convite a Ivinho que o aceitou prontamente.

- Não vão para muito longe, crianças! – Recomendou Norma.

Na estrada

Serafim dirigiu, dirigiu e dirigiu até que teve sono. Então disse com sua voz estrondosa de leão:

            - Estou com sono! É melhor pararmos e descansarmos um pouco.

            - Não! Continue a dirigir. – Recomendou Aldebarã.

            - Mas podemos sofrer um acidente. – Disse Margarida começando a ficar amedrontada.

            - Não sofreremos acidente algum. Podem acreditar. – Insistiu o pequeno mágico, lembrando-se da recomendação de sua mãe de se deixarem guiar pela imaginação.

            Já era noitinha. Havia uma enorme lua branca no céu e as estrelas brilhavam intensamente, iluminando toda a estrada. Acalentados pelo barulho do motor da van, todos – incluindo o motorista-leão Serafim – acabaram dormindo.

            Mas qual não foi a surpresa de todos quando acordaram e notaram que ao invés de terem capotado com a van na beira da estrada, todos continuavam normalmente dentro da van, como se esta estivesse por si só guiando a todos eles. E já não era mais noite. Era um lindo dia com um sol brilhante cintilando no céu azul. Pássaros de todos os tipos e cores davam vôos rasantes embaixo das nuvens brancas como algodão. Na beira da estrada, sobre o gramado verde, capivaras, pacas e tatus corriam olhando curiosos para a van.

            Num dado momento, todos puderam avistar um poste contendo uma placa em forma de seta de indicação apontando para o horizonte. Na placa estava inscrito em letras garrafais: “SÃO JOSÉ DA POEIRA EM PÉ”.

            Serafim seguiu a seta.

            Adiante o leão viu pelo retrovisor que vinha outro carro atrás. Era um fusca amarelo com bolinhas vermelhas. Permitindo que o fusca se aproximasse, não só o leão, mas os outros viajantes notaram que quem dirigia o fusca era um simpático moço negro que por sua vez se assustou ao perceber que a van colorida era dirigida por um leão. Acompanhando o moço negro, estava, ao seu lado, uma moça loira muito bonita. Mas a primeira coisa que Aldebarã, que estava no banco de trás da van, observou, foi uma bela menina mulatinha de olhos verdes claros que estava sentada no banco de trás do fusca e que trazia ao colo um ursinho de pelúcia muito fofo. A menina – que aparentava ter a mesma idade de Aldebarã – quando viu o menino-mágico lhe lançou um sorriso meigo, tão meigo que o deixou corado.

            - Eles estão nos olhando com uma cara tão esquisita. Observou Margarida.

            - Não é em qualquer lugar que se vê um leão dirigindo um carro, acompanhado de uma macaca, um coelho e uma criança. – Entendeu Serafim.

            Margarida continuou cochichando:

            - O rapaz deve ser motorista dela!

            - Motorista nada. – Discordou o coelho Nelson. – É namorado ou marido.

            - É motorista sim.

            - Você está dizendo isso só porque ele é negro e ela é branca.

            - Pois então vamos apostar. Se eu estiver certa, você fica uma semana fazendo sorvete de banana pra mim. Se você estiver certo, eu fico durante uma semana fazendo sopinha de cenoura com abóbora para você. Combinado?

            - Combinado.

            Os dois apertaram mão com pata.

            - Parem com essa discussão imbecil vocês dois. – Rosnou Serafim irritado.

            - É só um comentário. – Explicou Margarida.

            - Sei.

            Aldebarã não dizia nada. Estava com Isidoro no colo, enlevado com os belos olhos da menina que continuava a lhe sorrir do banco de trás do fusca.

            A van e o fusca foram seguindo viagem lado a lado.

            Surgiu atrás deles uma moto guiada por um senhor de cor negra e cabelos grisalhos. Quando a moto se aproximou, viu-se que o senhor trazia na garupa da moto um menininho também de cor negra e um imenso instrumento musical amarrado na traseira da moto. O senhor sorria para todos. O menininho apontava para van como que surpreendido pelos bichos que nela estavam. O casal do fusca também olhava para a van com olhos curiosos, demonstrando acharem impossível aquele quadro; um leão dirigindo uma van, acompanhado de um menino, uma macaca e um coelho. Somente Aldebarã e a mulatinha estavam distantes dali. Distraídos um com o outro, a se entreolharem como que apaixonados a primeira vista.

            - Será que eles também vão para São José da Poeira em Pé? – Indagou o coelho.

            - Acho que sim! – Respondeu o leão.

            - Quem será o negão da moto? – Perguntou Margarida.

            - Calem essa boca. – Irritou-se o leão. – Não sabem ficar um minuto sem fazer perguntas cretinas. Quando tivermos oportunidade, os conheceremos melhor.

            Serafim disse aquilo, mas ele também não se agüentava de curiosidade de conhecê-los. Curiosidade esta que, sem saber, eles compartilhavam com todos do fusca, com o senhor e o menininho da moto.