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domingo, 27 de março de 2011

O ataque das formigas saúvas


O
 sol era uma pequenina bola de fogo em cima do horizonte que em poucos minutos se escondeu atrás das montanhas para dar lugar no céu aos primeiros raios de luar.

O leão Serafim dirigindo a van, o padre Adonai dirigindo a moto e Sebastião dirigindo o fusca já estavam na estrada com seus companheiros. Aldebarã, Ângela e Ivinho estavam inconformados por ninguém ter acreditado na história do seqüestro relâmpago.

Aldebarã, com Isidoro no colo, dava a maior bronca no boneco:

- Que bonito, hein, seu Isidoro?! Fazendo a gente passar a maior vergonha. Mas você vai ver só uma coisa.

Ângela, por sua vez, também deu a maior bronca em seu ursinho Douglas e depois pensou lá com seus botõezinhos de menina:

- Como meus pais podem duvidar de qualquer coisa que eu diga depois de conhecer três bichos que falam?

À certa altura da estrada, esta passou a ser rodeada por uma floresta escura. Ouviam-se barulhos de grilos, cigarras e corujas. Padre Adonai e Ivinho na moto sentiam morcegos sobrevoarem por cima de suas cabeças. Era tudo escuridão. Somente os faróis do fusca, da van e da moto iluminavam o caminho.

- Eu esqueci que para chegarmos à cidade tínhamos que passar por essa mata horrorosa. – Dizia Norma, começando a ficar com medo.

De repente todos começaram a sentir formigas andando por cima de seus corpos. Eles as espantavam com as mãos, mas quanto mais eles espantavam, mais elas subiam.

De repente, os pneus da van, da moto e do fusca puf! Estouraram e todos tiveram que sair de seus veículos se estapeando para espantarem as formigas. A maioria deles começou a ficar entre aborrecida e amedrontada por estar naquela mata escura e fechada com aquelas formigas a lhe pinicar todo o corpo.

Sebastião pegou uma lanterninha para iluminar mais o lugar onde estavam, já que Ângela estava ameaçando começar a chorar de medo. Mas quando acendeu a luz da lanterninha quase que quem abriu o berreiro foi ele, quando percebeu que todo o seu corpo, o de sua mulher, sua filha, assim como o de padre Adonai, Aldebarã, Ivinho e os três animais estavam todos cobertos de formigas, daquelas saúvas, bem cabeçudas.

As formigas, então passaram a lhes picar a carne com agressividade e sem dó. Serafim deu um urro feroz e já ia começar a afiar suas garras contra as formigas, quando duas delas lhe saltaram sobre os olhos, picando-os e lhe deixando completamente cego. Sem poder fazer nada o pobre felino se atirou no chão e começou a agitar as quatro patas para o ar, dando rugidos desesperados e gritando:

- Socorro! Estou cego! Essas formigas malditas me cegaram!

Totalmente desnorteados todos começaram a gritar.

De repente, ouviu-se uma voz bem fininha, mas medonha como a de uma bruxa:

- Vamos levá-los para o formigueiro!

E misteriosamente abriu-se um imenso buraco embaixo deles.

Com bastante habilidade as formigas amarraram-nos todos juntos uns aos outros com cipó e os fizeram sentar no chão. Padre Adonai rezava quantos pais-nosso, ave-marias e credos podia; Norma e Ângela tinham os rostos parecendo duas bolas de fogo, devido o choro e as ferroadas das formigas; Aldebarã pensava em alguma mágica para fazer aquelas formigas sumirem; Ivinho chorava: Sebastião estava tenso e apreensivo. Margarida e Nelson ficavam calados com os olhos arregalados.

Acendeu-se uma luz que ninguém sabia de onde vinha. Depois todos observaram que era um pobre vaga-lume amordaçado e amarrado a um pequeno galho de árvore. Notaram também que o lugar onde estavam era parecido com um galpão de areia.

Uma formigona muito da antipática adentrou o recinto e foi logo dizendo:

- Silêncio! Finalmente demos início à fase inicial de nossa vingança contra os humanos e seus amigos, porque animal que é amigo de humano, humano é também e como tal também merece ser varrido do planeta. Agora dará entrada e tomará a palavra a nossa amada e idolatrada rainha Formiguete I, a vingadora.

E imediatamente bateu com um bastãozinho na terra três vezes. Nisso uma cortina feita de folha de bananeira abriu-se e uma formiga não menos arrogante entrou triunfantemente no formigueiro com uma coroazinha na cabeça, um imenso manto amarrado ao pescoço, derramado pelas costas e carregados pelas pontas por duas outras formigas damas de companhia.

A rainha das formigas tinha tanta pose que parecia que Ia se arrebentar de tanta pompa. Com a sua entrada, as formigas súditas se ajoelharam e lhe saudaram. A majestade, por sua vez, sentou na casca de um galho de árvore e disse de forma solene:

- Caríssimas súditas! Desde quando o mundo é mundo, essa porcaria que todas vocês conhecem muito bem, viemos sendo humilhadas, pisadas e assassinadas por esses cretinos desses humanos que nos envenenam e nos dedetizam todos os dias. Deus deixou a natureza aí para dividirmos tudo uns com os outros. Mas o homem que se diz racional quer tudo só para ele...

- Mas o que nós temos a ver com isso? – Interrompeu Sebastião que ainda não acreditava que estava sendo aprisionado com sua família por um bando de formigas.

- Cala a boca, crioulo maldito – disse a formiga mestra de cerimônias – Vossa Majestade ainda não acabou de se pronunciar.

- Obrigada! – Prosseguiu a rainha. – Como eu ia dizendo eles querem tudo só para eles e nos deixar sem nada. Como se já não bastasse, ainda tenta nos exterminar, não só a nós, mas a todos os outros insetos e animais da face da terra. Não é justo nós, que somos honestas e trabalhadeiras, nos deixemos ser abatidas por essa corrupta e mau-caráter.

As formigas começaram a aplaudir a rainha e a fazer mil alvoroços em torno dos prisioneiros, gritando hurras e palavras de ordem do tipo: “apo, apo, apo, os humanos estão no papo” ou “aram, aram, aram, os humanos se ferraram”.

Cansada de chorar, Norma passou a se impor:

- Vocês acham que é nos seqüestrando que vão conseguir o que querem?

A formiga olhou para Norma. Fitou bem os olhos dela e disse enfurecida:

- Espera aí. Eu estou reconhecendo esta oxigenada. Você não é a Norma, filha daquele casal de velhos safados que é o Afonso e a Diva e que vivem colocando aqueles remédios que já mataram muitas de nós na horta deles?

Ao ouvir ser xingada de “oxigenada” e os pais de “casal de velhos safados”, o sangue de Norma subiu a cabeça, fazendo-a esquecer todo o medo.

- Em primeiro lugar eu não sou oxigenada, pois meu cabelo é natural e segundo safada é você porque meus pais são as melhores pessoas da face da terra. E tem mais. A imensa horta que temos na fazenda é fornecida para todo o Estado e alimenta muita gente, não é só a nós, não senhora. Não tem necessidade nenhuma de vocês destruírem a horta da fazenda com tanta folha aqui nesse mato.

Ouviu-se um “ooohhh!!!” Entre as formigas, uma delas deu uma picada no braço de Norma, dizendo:

- Sua desaforada. Como ousa falar assim com Vossa Majestade?

 A outra formiga pediu permissão à rainha para que ela e as demais ferroassem a língua de Norma até que não sobrasse mais nada.

- O que é dessa daí está guardado. – Disse a rainha em tom ameaçador. - Dela e desse bando que ta com ela, incluindo esse leão bobão, essa macaca horrorosa e esse coelhinho sem graça.

Serafim estava com as patas e o focinho completamente amarrados em cima de uma grande pedra, totalmente imobilizado; se contorcendo de dor, devido às ferroadas nos olhos e no corpo todo; se sentindo ferido também moralmente por se sentir incapaz de usar sua autoridade e seu poder de rei dos animais para salvar-se a si mesmo e a seus amigos.

- O que a senhora pretende fazer conosco? – Perguntou o padre Adonai.

- Isto! - Respondeu a rainha estalando a fina patinha logo em seguida.

Imediatamente entrou no formigueiro um carnudo e suculento frango assado carregado por várias outras formigas saúvas que por sua vez puseram o frango diante dos prisioneiros e devoraram-no num piscar de olhos. Dentro de poucos instantes, o frango assado era somente ossada.

- Vocês vão comer a gente? – Perguntou Aldebarã quase fazendo xixi nas calças de tanto medo.

A rainha debochou do pequeno mágico:

- Oh! Mas que brilhante conclusão. Você é mesmo um garotinho muito inteligente.

Uma sauvinha muito jovem, filha da rainha, portanto princesa do formigueiro, que tinha gostado de Aldebarã, tentou pedir pelos prisioneiros:

- Minha mãe. Não é necessário devorá-los. Dar-lhe-emos apenas algumas picadinhas depois libertá-lo-emos.

- Cale-se! – Gritou a rainha. – Você desde quando inventou essa mania de virar vegetariana está misericordiosa demais pro meu gosto. Os humanos não têm piedade nenhuma conosco, porque haveríamos de ter com eles?!

Sebastião tentando ganhar tempo disse:

- Dona Formigona!

- Vossa Majestade! – Corrigiu uma das formigas súditas, dando-lhe uma bela ferroada no braço.

- Vossa Majestade, carne crua é muito ruim. A senhora não gostaria de colocar um temperinho antes?!

Norma que não sabia das intenções do marido, deu-lhe uma cotovelada.

- Ficou louco?

- Calma! – Respondeu o professor, baixinho. – Eu sei o que eu estou fazendo!

- Vocês já falaram demais pro meu gosto! – Disse a rainha. – Vamos parar com o papo que eu já estou morrendo de fome.

Ângela falou com voz manhosa:

- Mãe, eu estou com medo!

Tentando, sem conseguir, disfarçar o desespero, Norma consolava a filha:

- Calma filhinha! Mamãe está aqui!

Aldebarã, Ângela e Ivinho estavam desconsolados. Haviam acabado de escapar de quatro bandidos perigosíssimos fantasiados de palhaços e agora estavam prestes a serem devorados por aquelas formigas comedoras de gente. Lembraram de ter deixado Isidoro na van e Douglas no fusca:

- Será que eles vão se transformar no Super-Mandiocão e no Mega-Ursão novamente para nos salvar? – Pensavam.

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