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quinta-feira, 17 de março de 2011

Os quatro palhaços


  A
ldebarã, Ângela e Ivinho foram brincar num pequeno jardim que ficava entre a lanchonete e um parquinho que tinha ali perto, levando consigo Isidoro e Douglas. Sentaram num banquinho um do lado do outro. A princípio, Aldebarã e Ângela só se olhavam encabulados sem saberem o que dizer um ao outro.

            Cansada daquela timidez, a menina perguntou:

            - Que tipo de mágica você faz, Aldebarã?

            - Olha só!

E o menino tirou duas cartas de jogo da manga de seu paletó de mágico mirim, mostrou para Ângela e num truque fez com que as cartas desaparecessem e reaparecesse por detrás das orelhas da menina, cada uma como duas flores – sem espinhos, é claro – que ele colheu e ofereceu galantemente à ela. A garota ficou encantada.

- Que lindo! – Disse.

E voltando-se para Ivinho, Ângela perguntou em libras se o menino havia gostado da mágica no que ele respondeu positivamente.

Ivinho, apesar de sua deficiência auditiva, era muito esperto e prestava atenção em tudo à sua volta. Infelizmente só não pôde prestar atenção em quatro sujeitos muito mal encarados que estavam fantasiados de palhaços, escondidos atrás de uma moita, observando-os.

O primeiro disse ao segundo:

- Simples. Um de nós vai para dentro do carro e ficar na direção esperando, enquanto os outros três vão ficar lá fazendo gracinha para distrair os pestinhas. Quando eles estiverem bem distraídos com a gente, cada um pega um, tapa a boca do infeliz e arrasta pra dentro do carro, enquanto o que estiver esperando na direção mete o pé no volante e nos leva direto para o nosso esconderijo, onde nós iremos arrancar os órgãos desses fedelhos – olhos, rins, fígado e coração – e venderemos por uma fortuna para o exterior. Que é para onde fugiremos depois que o plano estiver sido executado e nós estivermos postos a mão na grana.

- Vamos fazer o quê com o resto do corpo?

- Vamos jogar no rio para as piranhas comerem!

- Eu ainda continuo achando tudo isso muito arriscado!

- Você é um banana! Saiba que para ser bandido tem que ter muita coragem e determinação.

- Um deles além de ser preto ainda é surdo e mudo.

- Isso não interessa! O importante é o resto está em perfeita condição, pois a fala ou a não fala, tanto dele quanto a dos outros dois, não vai ter serventia nenhuma, nem antes, nem durante, nem depois da operação! – Disse o primeiro palhaço, dando uma diabólica risada logo em seguida.

- Olha só os olhos daquela menina. Parecem até dois pedacinhos do mar.

- Pois logo, logo, tanto os olhos dela quanto a dos outros dois capetinhas, assim como os outros órgãos que eu falei, vão nos dar muito dinheiro.

As crianças não tinham a menor noção do enorme e monstruoso perigo que as rondava.

Chateado por não poder conversar com Ivinho, pois não sabia usar as mãos em libras, Aldebarã pediu à Ângela para lhe ensinar como fazê-lo.

Nisso os falsos palhaços – que àquela altura já haviam decidido sair da teoria e partir para a prática do macabro plano – se aproximaram dos meninos dando cambalhotas. Ângela quando os viu ficou toda animada à bater palmas:

- Oba! Palhaços!

Os mercenários, aproveitando-se da ingenuidade da menina, começaram a fazer brincadeirinhas típicas dos palhaços de rua para entreter as crianças.

Alguns instantes depois, Aldebarã se entediou:

- Esses palhaços são muito sem graça! Vamos brincar ali no parquinho.

- Não. Vamos ficar aqui vendo só mais um pouquinho. – Pediu Ângela.

Os bandidos perceberam que não tinham mais tempo a perder. Cada um tirou um lenço de cores diferentes de dentro do bolso e começou a se aproximar ainda mais das crianças, fingindo fazer mágicas. Aproximaram seus lenços lentamente aos rostos das crianças e záz! Taparam-nas as bocas para que elas não gritassem, agarraram-nas e num piscar de olhos foram correndo tão velozes quanto três avestruzes para dentro do carro.

Surpreendidos com o repentino e violento ataque contra eles, Aldebarã e Ângela acabaram deixando seus bonecos Isidoro e Douglas caírem no chão. Ivinho ainda tentou morder a mão do palhaço-bandido que o segurava, mas o infeliz tinha a mão tão dura que parecia uma pedra e quase quebrou o dentinho do pobrezinho.

Depois que os bandidos entraram no carro com as crianças a espernearem e a gritarem inutilmente, o líder dos covardes gritou para o motorista:

- Pé na estrada, galera!

O motorista meteu o pé no volante e disparou com o carro a mil por hora.

 Já cientes de que aquilo era um seqüestro e de que estavam correndo risco de vida, as crianças entraram em pânico. Ângela desandou a chorar, espernear e gritar pelos pais; Ivinho emitia grunhidos desesperados em alto e bom som que fazia entender a quem escutasse que aquilo era um pedido de socorro; Aldebarã tentava inutilmente lutar com o bandido que o segurava.

Podem gritar e chorar a vontade. – Dizia um dos bandidos. – Ninguém vai escutar vocês. Já estamos muito longe, seus filhotes de cruz-credo com coisa ruim. Já, já vamos arrancar todos os órgãos de vocês fora e vamos vender para o exterior, onde vamos ganhar muito dinheiro.

E danaram a rir malignamente, deixando nossos pobres indefesos apavorados.

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