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les continuavam dirigindo quando a certa altura da estrada puderam avistar uma modesta lanchonete. Como estavam todos morrendo de fome, resolveram parar em frente à mesma. Estacionando um do lado do outro, desceram cada um do seu veículo.
O primeiro a falar foi o senhor:
- Vocês vão todos para São José da Poeira em Pé?
Todos concordaram que sim.
- Então podemos sentar todos nós a mesma mesa?
- Eu acho uma ótima idéia! – Respondeu o moço do fusca.
- É! – Concordou a loira não conseguindo esconder uma ponta de medo dos animais, principalmente de Serafim, pois não é hábito se ver, principalmente no Brasil, um leão as soltas como se fosse gato ou cachorro, ainda mais dirigindo.
- Vamos meu jovenzinho! – Disse o senhor, estendendo o convite a Aldebarã, Serafim, Margarida e Nelson.
Dentro da lanchonete havia algumas mesas e cadeiras enfileiradas que o senhor, o rapaz e Aldebarã uniram para poder ficarem todos juntos. Já sentados e acomodados à mesa, começaram as apresentações:
- Meu nome é Adonai e eu sou padre. – Disse o senhor.
- O senhor é o novo padre que estava para chegar à São José? – Perguntou a moça.
- Já estou chegando. – Respondeu o padre Adonai.
- Prazer e sua benção. – Continuou a loira, apertando a mão do padre, cumprimentando-o. Eu me chamo Norma, este é meu marido Sebastião e esta é minha filhinha Ângela.
O moço negro e a menina mulata sorriram para o padre e também o cumprimentaram, enquanto Nelson lançava sobre Margarida o olhar vitorioso da aposta ganha.
- A sua filhinha é muito lindinha. – Elogiou o padre, fazendo uma festinha com a ponta dos dedos no rostinho rechonchudo de Ângela.
- E esse garotinho fofo que está com o senhor? – Perguntou Norma se referindo ao menininho pretinho que estava com o padre Adonai.
- Este é o Ivinho. Eu acabei de adotá-lo. Ele é surdo e mudo.
Norma que sabia falar em libras, que é a linguagem de se falar com surdos-mudos, disse a Ivinho, através de sinais, que todos na mesa gostaram muito dele e queriam ser seus amigos.
Sebastião tomou a palavra:
- Agora faltou esse baixinho com roupa de mágico? Qual o seu nome?
- Aldebarã! – Respondeu o menino-mágico.
- Onde estão seus pais Aldebarã?
- Minha mãe mora na Inglaterra!
Norma ficou horrorizada:
- Sua mãe vai morar na Inglaterra e deixa você sozinho com um leão, uma macaca e um coelho?
Ofendida com o pouco caso, Margarida pôs as mãos na cintura e gritou:
- Fique sabendo que nós somos animais sim senhora, mas cuidamos muito bem dele, viu?! Aliás, muito melhor do que muitos pais que cuidam de seus filhos.
Norma e Ângela quase levantaram da cadeira e saíram correndo, tamanho foi o susto que tomaram com a fala da macaca. Padre Adonai, Sebastião e Ivinho - que apesar da deficiência auditiva pôde perceber que a macaca falava através do gesticular de sua boca - também ficaram surpreendidos.
- Calma Margarida! – Ponderou o coelho Nelson, deixando todos mais embasbacados do que já estavam. A dona Norma não falou por mal.
- O senhor leão também fala? – Perguntou o padre Adonai.
- Apenas quando é necessário. – Respondeu Serafim.
O garçom apareceu e anotou os pedidos, com um pouco de medo de Serafim, mas conseguiu disfarçar, se retirando imediatamente.
- O que sua mãe faz da vida, Aldebarã? – Sebastião quis saber.
- Minha mãe trabalha no circo. Ela faz tudo. Ela é palhaça, trapezista, mulher barbada, engolidora de fogo e espada...
- Puxa mãe! – Interrompeu Ângela que era fascinada pelo mundo do circo. – Você bem que podia fazer todas essas coisas que a mãe do Aldebarã faz, né?!
- Filhinha, mamãe já é professora, o que vale por tudo isso e muito mais! – Respondeu Norma, arrancando gargalhadas de todos na mesa.
- E sua mãe nunca se machucou Aldebarã?
- Teve uma vez que ela foi saltar dentro de uma roda de fogo e saiu toda chamuscada.
O garçom chegou com os lanches e a fatia de contrafilé crua que Serafim havia pedido. Enquanto lanchavam o papo continuava.
- Você é professora de quê? – Perguntou Aldebarã à Norma.
- Eu sou professora de literatura.
- E eu sou professor de História. – Intrometeu-se Sebastião.
- Com pai e mãe professores a Ângela vai crescer muito sabida. – Brincou o padre Adonai.
- Vocês já têm onde ficar? - Perguntou Norma.
- Nós vamos ficar numa casa de mármore que minha mãe deixou para nós lá na cidade. – Disse Aldebarã.
- Eu e Ivinho vamos ficar na casa que era do antigo padre nos fundos da igreja. – Disse o padre.
- Se vocês não tivessem onde ficar poderia ficar uns tempos na fazenda do meu sogro Afonso, aposto que ele não iria se importar. Ele adora crianças. – Disse Sebastião.
- Então você é filha do vovô Afonso e da vovó Diva? – Perguntou Aldebarã à Norma.
- Você já os conhecia? – Quis saber Norma.
- Minha mãe falou deles no e-mail que mandou para mim. Ela os conheceu quando esteve em São José.
- Eu sou suspeita para falar, mas meus pais são pessoas maravilhosas. Amigos de todos e tem corações maiores do que o mundo, aliás, o mundo só não, maior do que todo o sistema solar junto.
Sebastião continuou:
- E a minha esposa aqui puxou a eles. É por isso que eu sou tão apaixonado por ela. – E deu um beijo na mulher.
- Como é São José da Poeira em Pé?
Com o olhar longínquo, a professora respondeu:
- É um lugar maravilhoso. Lá o ar é mais puro. As crianças são mais saudáveis, mais livres. Podem correr e brincar por toda a parte. Os homens se respeitam e se tratam melhor uns aos outros. É um lugar raro nos dias de hoje.
- Lá têm muitos lugares com o nome engraçado – disse Sebastião. – Como o rio Morubixaba, o matagal da Serpente Partida ao Meio, o morro do Largato Seco. Mas também tem praça, parque e campos próprios para as crianças brincarem.
Depois que acabaram de lanchar, Ângela se aproximou de Aldebarã.
- Que boneco é esse?
- O nome dele é Isidoro e é feito de mandioca.
- Que engraçado!
- E esse seu ursinho de pelúcia?
- O nome dele é Douglas.
- Vamos brincar?!
Ângela que também sabia falar em libras estendeu o convite a Ivinho que o aceitou prontamente.
- Não vão para muito longe, crianças! – Recomendou Norma.
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