Atualização todas as quartas-feiras

quinta-feira, 17 de março de 2011

A parada


  E
les continuavam dirigindo quando a certa altura da estrada puderam avistar uma modesta lanchonete. Como estavam todos morrendo de fome, resolveram parar em frente à mesma. Estacionando um do lado do outro, desceram cada um do seu veículo.

O primeiro a falar foi o senhor:

- Vocês vão todos para São José da Poeira em Pé?

Todos concordaram que sim.

- Então podemos sentar todos nós a mesma mesa?

- Eu acho uma ótima idéia! – Respondeu o moço do fusca.

- É! – Concordou a loira não conseguindo esconder uma ponta de medo dos animais, principalmente de Serafim, pois não é hábito se ver, principalmente no Brasil, um leão as soltas como se fosse gato ou cachorro, ainda mais dirigindo.

- Vamos meu jovenzinho! – Disse o senhor, estendendo o convite a Aldebarã, Serafim, Margarida e Nelson.

Dentro da lanchonete havia algumas mesas e cadeiras enfileiradas que o senhor, o rapaz e Aldebarã uniram para poder ficarem todos juntos. Já sentados e acomodados à mesa, começaram as apresentações:

- Meu nome é Adonai e eu sou padre. – Disse o senhor.

- O senhor é o novo padre que estava para chegar à São José? – Perguntou a moça.

- Já estou chegando. – Respondeu o padre Adonai.

- Prazer e sua benção. – Continuou a loira, apertando a mão do padre, cumprimentando-o. Eu me chamo Norma, este é meu marido Sebastião e esta é minha filhinha Ângela.

O moço negro e a menina mulata sorriram para o padre e também o cumprimentaram, enquanto Nelson lançava sobre Margarida o olhar vitorioso da aposta ganha.

- A sua filhinha é muito lindinha. – Elogiou o padre, fazendo uma festinha com a ponta dos dedos no rostinho rechonchudo de Ângela.

- E esse garotinho fofo que está com o senhor? – Perguntou Norma se referindo ao menininho pretinho que estava com o padre Adonai.

- Este é o Ivinho. Eu acabei de adotá-lo. Ele é surdo e mudo.

Norma que sabia falar em libras, que é a linguagem de se falar com surdos-mudos, disse a Ivinho, através de sinais, que todos na mesa gostaram muito dele e queriam ser seus amigos.

Sebastião tomou a palavra:

- Agora faltou esse baixinho com roupa de mágico? Qual o seu nome?

- Aldebarã! – Respondeu o menino-mágico.

- Onde estão seus pais Aldebarã?

- Minha mãe mora na Inglaterra!

Norma ficou horrorizada:

- Sua mãe vai morar na Inglaterra e deixa você sozinho com um leão, uma macaca e um coelho?

Ofendida com o pouco caso, Margarida pôs as mãos na cintura e gritou:

- Fique sabendo que nós somos animais sim senhora, mas cuidamos muito bem dele, viu?! Aliás, muito melhor do que muitos pais que cuidam de seus filhos.

Norma e Ângela quase levantaram da cadeira e saíram correndo, tamanho foi o susto que tomaram com a fala da macaca. Padre Adonai, Sebastião e Ivinho - que apesar da deficiência auditiva pôde perceber que a macaca falava através do gesticular de sua boca - também ficaram surpreendidos.

- Calma Margarida! – Ponderou o coelho Nelson, deixando todos mais embasbacados do que já estavam. A dona Norma não falou por mal.

- O senhor leão também fala? – Perguntou o padre Adonai.

- Apenas quando é necessário. – Respondeu Serafim.

O garçom apareceu e anotou os pedidos, com um pouco de medo de Serafim, mas conseguiu disfarçar, se retirando imediatamente.

- O que sua mãe faz da vida, Aldebarã? – Sebastião quis saber.

- Minha mãe trabalha no circo. Ela faz tudo. Ela é palhaça, trapezista, mulher barbada, engolidora de fogo e espada...

- Puxa mãe! – Interrompeu Ângela que era fascinada pelo mundo do circo. – Você bem que podia fazer todas essas coisas que a mãe do Aldebarã faz, né?!

- Filhinha, mamãe já é professora, o que vale por tudo isso e muito mais! – Respondeu Norma, arrancando gargalhadas de todos na mesa.

- E sua mãe nunca se machucou Aldebarã?

- Teve uma vez que ela foi saltar dentro de uma roda de fogo e saiu toda chamuscada.

O garçom chegou com os lanches e a fatia de contrafilé crua que Serafim havia pedido. Enquanto lanchavam o papo continuava.

- Você é professora de quê? – Perguntou Aldebarã à Norma.

- Eu sou professora de literatura.

- E eu sou professor de História. – Intrometeu-se Sebastião.

- Com pai e mãe professores a Ângela vai crescer muito sabida. – Brincou o padre Adonai.

- Vocês já têm onde ficar? - Perguntou Norma.

- Nós vamos ficar numa casa de mármore que minha mãe deixou para nós lá na cidade. – Disse Aldebarã.

- Eu e Ivinho vamos ficar na casa que era do antigo padre nos fundos da igreja. – Disse o padre.

- Se vocês não tivessem onde ficar poderia ficar uns tempos na fazenda do meu sogro Afonso, aposto que ele não iria se importar. Ele adora crianças. – Disse Sebastião.

- Então você é filha do vovô Afonso e da vovó Diva? – Perguntou Aldebarã à Norma.

- Você já os conhecia? – Quis saber Norma.

- Minha mãe falou deles no e-mail que mandou para mim. Ela os conheceu quando esteve em São José.

- Eu sou suspeita para falar, mas meus pais são pessoas maravilhosas. Amigos de todos e tem corações maiores do que o mundo, aliás, o mundo só não, maior do que todo o sistema solar junto.

Sebastião continuou:

- E a minha esposa aqui puxou a eles. É por isso que eu sou tão apaixonado por ela. – E deu um beijo na mulher.

- Como é São José da Poeira em Pé?

Com o olhar longínquo, a professora respondeu:

- É um lugar maravilhoso. Lá o ar é mais puro. As crianças são mais saudáveis, mais livres. Podem correr e brincar por toda a parte. Os homens se respeitam e se tratam melhor uns aos outros. É um lugar raro nos dias de hoje.

- Lá têm muitos lugares com o nome engraçado – disse Sebastião. – Como o rio Morubixaba, o matagal da Serpente Partida ao Meio, o morro do Largato Seco. Mas também tem praça, parque e campos próprios para as crianças brincarem.

Depois que acabaram de lanchar, Ângela se aproximou de Aldebarã.

- Que boneco é esse?

- O nome dele é Isidoro e é feito de mandioca.

- Que engraçado!

- E esse seu ursinho de pelúcia?

- O nome dele é Douglas.

- Vamos brincar?!

Ângela que também sabia falar em libras estendeu o convite a Ivinho que o aceitou prontamente.

- Não vão para muito longe, crianças! – Recomendou Norma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário